As personagens preferidas das crianças revelam muito sobre o seu desenvolvimento em diferentes idades. Isto começa desde a primeira infância e continua ao longo do seu crescimento. A Inês, 2 anos, não se separa do T'choupi. A Léa, 4 anos, dorme com o Ursinho Castanho. O Lucas, 6 anos, só fala da Mortelle Adèle. O Yaël, 8 anos, lê Harry Potter. Cada idade tem as suas personagens, e isso não é por acaso. Eis o que cada idade procura, e o que as escolhas do seu filho revelam sobre o seu desenvolvimento.
Aos 2 anos: o espelho simples
A criança de 2 anos gosta de personagens que se parecem com ela no dia a dia. Não um herói que salva o mundo, mas uma personagem que come, que brinca, que dorme, que fica de mau humor. T'choupi, Ursinho Castanho, Caillou, Spot. Estas personagens partilham três características: forma simples e reconhecível, vida quotidiana sem grande perigo, emoções básicas (alegria, zanga, medo, fome) facilmente identificáveis.
O que isto revela: a criança constrói o seu sentimento de existir através da personagem. Assim, ver outro a viver as mesmas coisas que ela valida a sua existência. Além disso, não subestime o T'choupi: é uma das ferramentas mais poderosas para o desenvolvimento emocional aos 2 anos.

Aos 4 anos: o companheiro fantástico
A criança de 4 anos gosta de personagens que a transportam para universos onde nunca esteve, mas que continuam afetuosas e acessíveis. Ursinho Castanho (sempre), Sam Sam, T'choupi (a chegar ao fim), mas também Trotro o burrinho, Mimi Cracra, o Lobo de Orianne Lallemand.
Características comuns: uma personagem cativante que vive aventuras rocambolescas mas seguras. Sem morte, sem separação traumática, sem vilão indelével. O desafio é resolvido no final da história.
O que isto revela: a criança explora as fronteiras do seu mundo sem sair do seu casulo afetivo. A personagem serve de ponte entre o familiar e o novo.
Aos 6 anos: o herói que se afirma
A criança de 6 anos gosta de personagens que se afirmam, que transgridem, que têm carácter. Mortelle Adèle, Anatole Latuile, o Pequeno Nicolau, Splat o Gato, Pénélope Cabeça no Ar. Estas personagens já não são espelhos: são modelos de autonomia reivindicada. A autonomia nesta idade é importante porque permite à criança construir um modelo identitário próprio.
Características comuns: uma personagem que diz não, que falha, que se ri de si própria, que desobedece, e que consegue sempre sair-se bem. O humor desconcertante torna-se central.
O que isto revela: a criança entra na idade da razão, em que começa a distinguir o que pertence ao adulto e o que lhe pertence a ela. A personagem que transgride autoriza a criança a explorar os seus próprios limites.
Aos 8 anos: o herói que escolhe
A criança de 8 anos gosta de heróis confrontados com escolhas morais. Harry Potter, Tom e Léa da Casa na Árvore Mágica, Akissi, o herói de Anatole Latuile (que passa para outro nível), os heróis de Roald Dahl. Estas personagens já não são apenas cativantes ou divertidas: são colocadas perante dilemas.
Características comuns: um herói que tem de escolher entre várias opções, que pode enganar-se, que duvida. A nuance moral torna-se digerível.
O que isto revela: a criança acede à complexidade moral. Começa a compreender que os vilões têm razões, que os heróis têm defeitos, que o mundo não é binário.

O que dizem as escolhas do seu filho
A personagem que o seu filho escolhe num pico de paixão revela a sua zona de desenvolvimento atual. Se a Léa, 5 anos, ainda está no Ursinho Castanho, está na fase dos 4 anos (nada preocupante, apenas um desfasamento). Com efeito, se o Lucas, 6 anos, lê Harry Potter, está adiantado na sua fase moral (muito bem). No entanto, se o Yaël, 8 anos, ainda dorme com o T'choupi, precisa de continuar a acalmar-se (não é um atraso, é uma necessidade).
O erro clássico: empurrar uma criança para uma personagem demasiado avançada para a sua idade ("podias ler Harry Potter com 5 anos"). O desfasamento entre o conteúdo e a maturidade cria um sentimento de fracasso, não de elevação.
Quando uma personagem se torna um objeto de identificação duradouro
Algumas crianças mantêm uma personagem favorita durante anos. Esta estabilidade não é um atraso: é uma forma de vínculo narrativo saudável. A personagem torna-se uma referência identitária que sobrevive às fases.
O vínculo duradouro a uma personagem preferida pode parecer surpreendente, mas desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da criança. Ao identificar-se de forma duradoura com uma personagem, a criança reforça traços identitários que lhe são próprios, trazendo estabilidade e segurança ao seu crescimento emocional.
Segundo Catherine Gueguen, estes vínculos a uma personagem estável desempenham um papel semelhante ao de um objeto de conforto. Com efeito, atuam como objetos transicionais que ajudam a criança a atravessar as dificuldades mantendo um elo de identificação estável.
Para saber mais
Para esclarecimentos mais amplos sobre as personagens preferidas e o desenvolvimento, o site Naître et Grandir propõe seleções de livros por faixa etária com análise das personagens.
O livro em que a criança se torna a personagem
A etapa final do vínculo a uma personagem é quando a criança quer tornar-se ela própria a heroína. Além disso, pode criar a sua história personalizada na Real Big Stories, onde o seu filho toma o lugar da personagem e vive a aventura na primeira pessoa. Aos 4 anos, é uma prenda que toca profundamente. Aos 8 anos, é um objeto que se guarda para sempre.
