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Un parent et un enfant de 8 ans partagent un livre sur un canapé, l'enfant lit une réplique pendant que le parent suit du doigt

Dislexia: como manter o prazer de ler apesar do esforço

A dislexia transforma a leitura em trabalho árduo. Como preservar o prazer das histórias numa criança para quem decifrar custa caro, sem a forçar.

Brice Louvet

Brice Louvet

A dislexia não faz apenas ler mais devagar. Ela estraga algo mais subtil: a vontade de abrir um livro. Uma criança que demora oito minutos a decifrar uma página acaba por associar a leitura ao fracasso, depois evita-a, e o fosso alarga-se. É essa espiral que se joga em casa, muito mais do que a descodificação em si.

Este texto não faz nenhum diagnóstico. Parte do que acontece à noite, no sofá, depois de feita a reeducação.

O que a dislexia muda na prática

Um leitor comum acaba por reconhecer as palavras como um todo. A palavra «casa» já não se decifra, vê-se. Ora é exatamente essa automatização que continua a ser custosa numa criança disléxica: ela continua a reconstruir, letra a letra, muito depois dos colegas.

Por isso, toda a sua atenção vai para a descodificação. Sobra-lhe pouca para compreender a história, memorizar os nomes das personagens, ou saborear um final surpreendente. Uma criança pode assim ler corretamente uma página em voz alta e não conseguir contar nada do que leu, o que deixa muitos pais desorientados.

O INSERM classifica a dislexia entre as perturbações específicas da aprendizagem, ao lado da disortografia e da discalculia. Estas perturbações são duradouras e nada têm a ver com a inteligência nem com o esforço feito, algo que as crianças afetadas precisam de ouvir várias vezes.

Porque é que o prazer de ler desaparece primeiro

O mecanismo é simples. A criança faz um esforço visível, o resultado fica aquém do do colega do lado, e ela tira daí uma conclusão sobre si própria em vez de sobre a tarefa. A seguir, evita tudo o que se pareça com um livro, mesmo em casa, mesmo à noite.

Essa evitação custa a dobrar. De facto, quanto menos lê, menos palavras encontra, e o vocabulário progride mais devagar do que nas outras crianças. Stanislas Dehaene, que estudou as redes cerebrais da leitura, descreve a aprendizagem como uma longa exposição repetida: exatamente o que a evitação suprime.

É por isso que o primeiro desafio não é o desempenho, mas a vontade. Uma criança que mantém o gosto pelas histórias continua a progredir, ainda que devagar.

Separar ler e decifrar

A confusão mais útil de desfazer resume-se numa frase: ouvir uma história já é ler. A compreensão, o vocabulário, a construção de uma narrativa, a imaginação, tudo isso se trabalha sem descodificação.

Na prática, mantenha dois momentos distintos em casa. Por um lado, o trabalho de leitura, curto e estruturado, idealmente definido com o terapeuta da fala. Por outro, a história da noite, em que a criança escuta sem ter de produzir nada. Nunca misture os dois: o momento de prazer não deve tornar-se uma avaliação disfarçada.

Além disso, a leitura a duas vozes funciona muito bem. Você lê a narração, ele lê os diálogos, ou apenas a fala da personagem que prefere. Ele participa, tem um papel, e o esforço fica dosado.

O que realmente ajuda uma criança disléxica em casa

Os audiolivros têm má fama junto de alguns pais, que os veem como facilitismo. No entanto, cumprem o papel de expor a criança ao vocabulário e à sintaxe, e devolvem-lhe o acesso às histórias da sua idade. Ouçam-nos juntos, seguindo com o dedo de vez em quando, sem transformar isso num exercício.

Gros plan sur une main d'enfant faisant glisser une règle de lecture colorée sur la page d'un livre aux lignes très espacées

Quanto aos materiais, alguns ajustes reduzem o cansaço: um texto maior, mais espaçado, uma régua de leitura para isolar a linha, papel marfim em vez de branco brilhante. Estes ajustes não curam nada, mas aliviam um esforço já pesado.

Escolha depois livros curtos com um verdadeiro tema. Um romance de quarenta páginas sobre um assunto da sua idade vale mais do que um álbum para crianças mais pequenas, que o remeteria para o seu atraso. Aliás, muitas editoras oferecem hoje coleções adaptadas, com tipo de letra e espaçamento específicos.

Por fim, deixe-o reler dez vezes o mesmo livro. A releitura de um texto conhecido constrói a fluência melhor do que um texto novo, e dá-lhe a única coisa que lhe falta: a experiência de ler depressa.

As frases a evitar, e as que ajudam

«Faz um esforço» e «lês depressa demais, recomeça» estão no topo das frases contraproducentes. A criança já está a fazer o esforço, e lembrar-lho só acrescenta vergonha ao cansaço.

Por outro lado, comentar o conteúdo em vez do desempenho muda o ambiente. «O que é que achas que ele vai fazer?» ou «esse ali irrita-me» trazem a criança de volta à história. Do mesmo modo, dizer claramente que o cérebro dela funciona de outra forma, sem dramatizar, tira-lhe um peso que muitas vezes carrega sozinha.

Ver-se como herói quando é difícil ler

Uma criança disléxica raramente lê uma história cujo herói se pareça com ela. Ora, reconhecer-se numa personagem dá uma razão para chegar ao fim da página, algo que nenhuma instrução consegue produzir.

Algumas famílias usam narrativas em que o seu filho é a personagem principal, com o seu nome e o seu rosto. A motivação muda de natureza: ele já não lê para progredir, lê para saber o que lhe vai acontecer. A Real Big Stories cria este tipo de histórias, e o texto pode ser curto sem ser infantilizante.

Para compreender melhor a própria perturbação, o INSERM publica um dossiê sobre as perturbações específicas da aprendizagem, e a Federação Francesa dos Dys reúne as associações locais e os procedimentos de adaptação escolar.

Se procura uma história curta que ele terá vontade de acabar, pode criar aquela em que ele é o herói.

Talvez continue sempre a ler mais devagar do que a irmã. Não é a velocidade que decide se vai gostar de ler aos trinta anos.

Dislexia: como manter o prazer de ler apesar do esforço | Real Big Stories