São vinte e dez, precisa de uma história para adormecer e o livro do momento ficou na casa da ama. Aqui ficam três textos curtos, prontos a ler tal como estão. A seguir, algumas indicações sobre a forma de os contar, porque o tom conta tanto como o texto.
Uma história para adormecer de dois minutos (2 a 4 anos)
O ouriço que arrumava a noite.

Todas as noites, um ouriço saía de debaixo da sebe com um saquinho. Ia apanhando os ruídos que o dia tinha deixado espalhados: a buzina de um carro, o riso de uma criança no escorrega, o ladrar do cão do número seis. Depois, punha tudo no saco, devagarinho, sem acordar ninguém.
Quando o saco ficava cheio, subia à colina e despejava-o no céu. E assim os ruídos transformavam-se em estrelas. É por isso que o céu brilha: é o dia inteiro arrumado lá em cima.
Depois, o ouriço voltava para debaixo da sebe, enrolado numa bola. Fechava os olhos. E o silêncio, finalmente, podia começar.
Uma história da noite para os 5 aos 7 anos
A lanterna emprestada.
O Nino guardava uma lanterna debaixo da almofada. Certa noite, ouviu um arranhar na janela. Não era um monstro, mas uma coruja, encharcada, que tinha perdido o caminho na chuva.
«Preciso de luz para voltar para casa», disse a coruja. O Nino hesitou, porque a lanterna também o tranquilizava a ele. Mas depois pensou na coruja lá fora, no escuro, e abriu a janela.
No final, a coruja partiu com a lanterna. O Nino ficou sozinho no quarto escuro, um pouco encolhido no fundo da cama. No entanto, algo tinha mudado: agora sabia para que servia a sua lanterna. De manhã, porém, ela estava pousada no parapeito, com três penas ao lado. Desde então, o Nino empresta-a uma noite por semana.
Uma história curta para os mais crescidos (8 anos ou mais)
O comboio que nunca partia a horas.
Numa estação de comboios no campo, um comboio noturno partia sempre com sete minutos de atraso. Por isso, os passageiros resmungavam. Já o chefe da estação não dizia nada.
No entanto, uma menina de dez anos, a Anaïs, decidiu investigar. Escondeu-se atrás de um banco e esperou. Às vinte e duas horas e três minutos, viu o chefe da estação descer para a via com uma lanterna, inclinar-se e afastar um ouriço adormecido de entre os carris. Depois outro. Depois um terceiro.
«Vêm por causa do calor», explicou ele, sem se virar. «Sete minutos. Nem um a menos.»
Então a Anaïs voltou para a carruagem. Desde essa noite, é a única passageira que sorri quando o comboio parte atrasado.
Como contar a história para que a criança adormeça
O texto conta menos do que o ritmo. Uma história da noite lê-se devagar, mais baixo do que a sua voz normal, com silêncios onde normalmente colocaria energia. Na prática, abrande ainda mais nas três últimas frases: é aí que o corpo se desliga.
Além disso, mantenha a mesma história durante várias noites seguidas, se a criança a pedir. A repetição aborrece o adulto e tranquiliza a criança, porque ela já sabe como termina. E é exatamente isso que procura a essa hora: nenhuma surpresa.
Evite, por fim, terminar com uma pergunta. «Então, o que achaste?» reativa o mecanismo mesmo quando este estava a parar. Feche o livro, apague a luz e fique trinta segundos sentado no escuro, sem falar.
Porque é que o ritual funciona melhor do que a própria história
Uma criança adormece sobre pontos de referência, não sobre um conteúdo. Sempre a mesma ordem: pijama, dentes, uma história, a luz do corredor. Com efeito, esta sequência avisa o corpo de que o sono está a chegar, e acaba por desencadear o adormecer sozinha.
Assim, é melhor uma história razoável todas as noites do que uma história fantástica uma noite em cada três. A regularidade é que faz o trabalho. Para mais indicações sobre o sono e a hora de deitar, a Naître et Grandir publica dossiês documentados sobre esta faixa etária.
Quando a criança pede sempre a mesma história
Muitos pais preocupam-se por lerem o mesmo livro durante seis meses. No entanto, é um bom sinal: a criança está a trabalhar algo através dela, muitas vezes um medo ou uma separação. Deixe-a fazê-lo: vai passar para outra coisa sem avisar, e muitas vezes de um dia para o outro.
Algumas famílias acabam por inventar a sua própria história, com a criança como personagem principal. Essa torna-se então a que ela pede todas as noites, porque se revê nela. Se quiser oferecer-lhe uma história assim, pode criar a história da noite em que ela é a heroína.
Esta noite, escolha a primeira. Dura dois minutos, e o ouriço já faz este trabalho há muito tempo.
